Biologia Evolutiva e Fisioterapia: uma aproximação

A tecnologia possibilitou com que realizássemos façanhas que seriam impossíveis de serem feitas por nossos ancestrais. Preservar alimentos refrigerados, falar em tempo real com pessoas do outro lado do mundo, voar sobre os continentes etc. Apesar destes e de muitos outros benefícios, a tecnologia grande parte das vezes distancia o corpo de suas funções primordiais, entre estas talvez a mais importante para qualquer tipo de vida, o movimento.

Veja por exemplo, a cadeira. Uma tecnologia simples, difundida pelo mundo inteiro. A sua invenção permitiu economizar energia para realizar tarefas de destreza manual, além de melhorar o conforto nas atividades diárias ou no repouso. Contudo os seus benefícios escondem graves efeitos colaterais: atualmente a cadeira é uma das principais causas de problemas musculoesqueléticos e cardiovasculares, que, respectivamente, incapacitam e são a principal causa de morte para maioria das pessoas em todo o mundo.

Por quase três milhões de anos, nossos ancestrais viveram como caçadores-coletores, essencialmente nômades. Tal estilo de vida visava um propósito relativamente simples: a sobrevivência. Contudo para sobreviver precisávamos nos movimentar, afinal, se decidíssemos não caçar ou buscar recursos, não haveria outro modo de se adquirir itens básicos para a sobrevivência, como há hoje, por exemplo, a entrega de pizza em casa.  Todas as atividades do cotidiano caçador-coletor são físicas, para caçar, coletar, fugir de um predador e, até mesmo, em todas as atividades sociais e culturais, estas pessoas utilizavam (e utilizam) o próprio corpo, pois não existia ferramentas para fazer isso por eles.

A agricultura há doze mil anos e a revolução industrial que começou há dois séculos possibilitaram com que nos tornássemos realmente sedentários. Indiscutivelmente também trouxeram muitos benefícios para a saúde, como os cuidados médicos, saneamento básico, entre outros cuidados que só foram possíveis pelo desenvolvimento tecnológico. Contudo atualmente o humano contemporâneo negligência todas as necessidades fundamentais que moldaram em seus corpos as características biológicas que os definem. Não é raro notar uma pessoa que levanta de sua cama pela manhã, senta em um automóvel para ir ao trabalho por longos períodos e ao chegar permanece sentado por oito horas ou mais. Então, ao fim do dia, senta-se novamente no automóvel, que o leva passivamente de volta a sua casa para, enfim, poder finalmente descansar, evidentemente que sentado no sofá assistindo televisão ou mexendo em algum dispositivo tecnológico como computador, smartphone ou tablet.

De acordo com Daniel Lieberman, chefe da cadeira de biologia evolutiva na Universidade de Harvard, “somos atletas naturais, ser inativo [cronicamente] é anormal e patológico”. É por essa discrepância entre biologia e cultura contemporânea que o corpo humano vive hoje em um estado de incompatibilidade com o ambiente, o que certamente tem um custo, neste caso disfunções e doenças musculoesqueléticas. Assim, para, por exemplo, tratar de um motorista que tenha dor lombar faz-se necessário explicar a causa de incompatibilidade para um tratamento completo. Sabe-se cada vez mais da importância da educação no sucesso de qualquer tratamento, e, neste caso, explicar a incompatibilidade entre a função natural da coluna (deslocamento bípede) e a utilização exagerada do banco do automóvel (repouso estático com alteração estrutural da coluna), mostra-se primordial para que o indivíduo entenda qual comportamento o leva ao problema. Consequentemente, faz-se tão importante quanto educar sobre a incompatibilidade, fornecer meios para amenizá-la, como deslocamentos bípedes em toda parada, seguido de exercícios  baseados em padrões ontogenéticos (como apoio unipodal, cócoras etc).

Porém como pensar deste modo se na formação tradicional em Fisioterapia não se tem este tipo de raciocínio nem se fornece arcabouço teórico para tal?

Está claro que a evolução biológica é o pilar teórico central da Biologia, sendo assim o estudo de disciplinas biológicas fundamentais ao fisioterapeuta como Anatomia, Fisiologia e Cinesiologia é, no mínimo, incompleto sem o entendimento das bases evolucionárias.Visando amenizar esta negligência na formação do fisioterapeuta o Curso FBA formula um conceito que se utiliza dos conhecimentos de evolução biológica para ajudar a entender melhor o movimento humano. Usando como referência as adaptações evolutivas responsáveis por moldar a cinesiologia humana, desenvolve-se uma linha de raciocínio que, quando integrada à bagagem de conhecimento do profissional, permite uma atuação biopsicossocial e mais direta nas disfunções de movimento e desordens musculoesqueléticas. O tratamento proposto foca na (1) educação, a fim de indicar ao paciente como alguns hábitos contemporâneos para afastar nossa biologia do estado de saúde; na (2) cinesioterapia evolutiva, que objetiva amenizar a incompatibilidade aproximando o corpo de movimentos mais naturais; e na (3) orientação, que visa devolver ao paciente a responsabilidade por sua saúde.

Caso tenha se interessado e queira saber mais, convido-lhe a conhecer melhor a proposta do Curso Livre de FBA através dos vídeos no youtube.com/cursofba e do site cursofba.com.

Um grande abraço,

Pablo Santurbano

Publicado originalmente em bwizer.wordpress.com

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