Desenvolvimento Motor Comparativo

O que o desenvolvimento motor de outros mamíferos poderia ensinar sobre a movimentação humana?

Os trabalhos de Philip Teitelbaum são muito influentes na pesquisa de psicologia e fisiologia comparativa, pois traça um paralelo entre comportamentos motores de humanos e de outros mamíferos. Seus estudos mostraram que comportamentos básicos e funções fisiológicas primitivas foram conservados durante oprocesso de evolução do ser humano, apesar de sermos atualmente espécies totalmente diferentes.

No presente estudo, o autor analisou alguns marcos motores da infância (deitar, rolar, sentar, ficar em pé e caminhar) através de um software de captura de movimento. Através da análise da simetria de cada membro, o programa analisava o movimento ao longo do tempo. Curiosamente cada marco do desenvolvimento motor apresentou uma ativação específica, ou seja, em cada momento da vida da criança houve correlação com estratégias adquiridas por outros mamíferos. Por exemplo: em torno de 7-8 meses a criança já está apta a sentar sem o uso de apoio. O sentar exige integração entre o sistema vestibular e os músculos, geralmente sendo adquirido após o desenvolvimento do reflexo de endireitamento. Um reflexo que, por sua vez, é partilhado com primatas não-humanos.
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O autor também estudou posturas em crianças com autismo e comparou seu comportamento motor com padrões estabelecidos em crianças saudáveis. Em algumas situações, de modo a evitar viés, ferramentas mais precisas como um software são úteis para avaliar a complexidade de comportamentos biológicos específicos, como os padrões de movimento. Em geral todos os padrões motores apresentaram alteração e, segundo sugere o autor, poderiam servir como um diagnóstico prévio de autismo. Em suma o estudo sugeriu que posturas atípicas e assimetrias poderiam indicar a presença de alguma disfunção na criança. Ou seja, uma condição neurológica pode alterar os marcos motores do desenvolvimento (ontogenia), que por sua vez seriam, como mostra Teitelbaum, uma recapitulação dos marcos motores de nossos ancestrais primitivos não-humanos (filogenia). Tais correlações indicam que o compreendimento da nossa história evolutiva poderia enriquecer a formulação de parâmetros naturais para o movimento humano.

A FBA sugere que a aproximação da ontogenia com a filogenia (estudo de outras espécies) teria a capacidade de complementar, fortalecer e aprofundar o conhecimento sobre o sistema de movimento humano. O raciocínio evolucionário pode, inclusive, ir além das disfunções neurológicas, fornecendo “insights” na avaliação e na formulação de condutas para recuperação de disfunções do movimento, como, por exemplo, as de caráter ortopédico.

Por Jonas Magnabosco.

Revisado por Bruno Montoro e Pablo Santurbano.

REFERÊNCIA
G. Esposito, S. Yoshida, P. Venuti, K.O. Kuroda. Three lessons from Philip Teitelbaum and their application to studies of motor development in humans and mice. Behavioural Brain Research 231 (2012) 366– 370.

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