Desenvolvimento Cultural e Função Orgânica

“Progressivamente ao longo das últimas gerações as pessoas foram diminuindo o uso do corpo,

algo que implicou num grande prejuízo corporal que acometeu as gerações mais recentes. Este é um mecanismo que silenciosamente vem afetando drasticamente nossas vidas, no qual a tecnologia e a cultura sobrepõem de tal forma as funções básicas humanas que estas podem ter começado a atrofiar.

O uso de uma tecnologia que supre uma função do organismo causa um efeito inversamente proporcional na capacidade orgânica correspondente. Por exemplo, quanto mais usamos a calculadora para fazer contas, pior fica nossa habilidade mental de calcular[i]. Isso provavelmente deve ter ocorrido com você também. Durante a educação escolar normalmente somos desestimulados ou proibidos de utilizar a calculadora, nas aulas de matemática as contas deviam ser feitas com a ajuda de lápis, borracha, papel e raciocínio. Conforme vamos deixando o sistema escolar e os celulares foram passando a fazer parte do cotidiano, introduzimos o uso da calculadora para realizar até mesmo os cálculos mais banais, o que provoca um tipo de “hipotrofia” em nossa capacidade de calcular.

Lembremos que biologicamente somos caçadores-coletores que andam de carro...

Lembremos que biologicamente somos caçadores-coletores que andam de carro…

Embora tenha sido usado um exemplo de cálculo, isso acontece o tempo inteiro em muitas situações do dia a dia contemporâneo, inclusive em tarefas mecânicas. Você já parou para refletir que quanto mais usamos automóveis para nos locomover mais inaptos nos tornamos em relação à caminhada ou à corrida? Numa análise evolucionária, poderia ser dito que usamos uma tecnologia, o automóvel, que supre uma função orgânica, o deslocamento bípede, e, deste modo, passamos a atrofiar tal função. O uso da mandíbula oferece um exemplo similar. Quanto mais macio é o alimento de uma população, como, por exemplo, a alimentação industrializada, menor o desenvolvimento e, consequentemente, o tamanho da mandíbula dos indivíduos. Uma provável explicação para nossos crescentes problemas oclusivos[ii].”

Trecho do Capítulo 1 “Pandemia de desordens musculoesqueléticas” do livro “O Raciocínio Evolucionário Aplicado ao Movimento Humano” [título provisório].

[i] Mello, LG. Antropologia cultural. Petrópolis: Vozes, 2008.

[ii] Pinhasi R, Eshed V, von Cramon-Taubadel N. Incongruity between Affinity Patterns Based on Mandibular and Lower Dental Dimensions following the Transition to Agriculture in the Near East, Anatolia and Europe. PLoS ONE 10(2):e0117301, 2015. doi:10.1371/journal.pone.0117301.

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