As Disciplinas Esquecidas pelas Ciências do Movimento

A Ciência, desde que virou um modo de aquisição de conhecimento usado pelo humano, vem tendo seus paradigmas quebrados, refutados e readaptados. Afinal ela tem exatamente esse propósito, sendo esse mecanismo responsável pelo progresso científico. E é por causa disso somos capazes hoje de voar em aviões ou esquentar o nosso jantar no micro-ondas. Por bem ou por mal merecemos esse momento, tudo o que fizemos e construímos até agora nos levou até ele. Além disso, graças aos avanços da tecnologia da informação, nunca na história da humanidade se produziu tanta informação quanto agora.

Isso acontece também nas Ciências da Saúde e do Movimento. Em longo prazo essa quebra de paradigmas poderá trazer grandes benefícios aos profissionais e pacientes, mas para quem vive dentro deste período de tempo ainda inconclusivo, pode ser confuso… Principalmente porque a informação parece muito volátil, uma vez que muito daquilo que já temos como um consenso parece sofrer uma ameaça constante de ser derrubado pelo próximo artigo científico.

Talvez o problema seja que diversos procedimentos chegam ao mercado de trabalho sem ter passado pelo devido crivo científico. Os profissionais procuram técnicas que podem oferecer soluções aos seus pacientes, compram a ideia, e depois descobrem, por exemplo, que tais técnicas podem não ser diferentes de placebo para determinada condição. Em linhas gerais, ainda estamos descobrindo para qual condição cada conduta pode ser encaixada da forma mais eficaz possível e aparentemente condutas mais simples, mais educação e empoderamento, parecem ser a chave.

Quais são as bases atuais para tentar oferecer técnicas de tratamento mais seguras e efetivas?

Antes de mais nada, vale relembrar do básico: o ser humano é uma entidade biopsicossocial. E, por este prisma, o âmbito “bio” é aquele que permite em primeiro lugar uma realidade “psíquica” e “social” para a espécie. Sendo assim, a fim de integrar o conhecimento de todas essas esferas é imprescindível usar o grande conceito unificador da Biologia, que é a Evolução. A Biologia Evolutiva, talvez a base científica mais sólida das disciplinas biológicas, permite com que as subdisciplinas biológicas se encaixem em seu determinado contexto. Isso acontece principalmente pois pela visão evolucionária é possível entender o motivo biológico que desencadeou cada uma das características nos organismos.

As Ciências da Saúde e do Movimento, como a Fisioterapia, utilizam-se predominantemente de subdisciplinas estritamente biológicas, como Anatomia, Fisiologia, Cinesiologia, levando em conta também aspectos socioculturais, psicológicos e comportamentais, tornando imprescindível o entendimento de outras disciplinas como Antropologia, Psicologia e Neurociências para compor suas hipóteses fundamentais. No entanto tais disciplinas muitas vezes aparentam desconexas pela falta de conexão lógica entre elas no modelo de ensino atual. E, embora atualmente cada vez mais o contexto biopsicossocial do ser humano tenha sido considerado, ainda há um grave problema, um erro fundamental ao se estudar o ser humano no âmbito da saúde: a negligência do estudo dos processos de evolução da espécie que permite unificação de conceitos entre as disciplinas biológicas e humanas.

A Biologia Evolutiva quando comparada a Anatomia, a Cinesiologia ou até mesmo à Fisioterapia, pode ser considerada uma ciência mais rígida, ou seja, um campo científico que apresenta um maior grau de consenso em sua comunidade. Por este motivo, campos mais rígidos deveriam servir de base para disciplinas mais maleáveis, que, ao contrário, apresentam ainda pouco consenso. Aproximando do nosso campo de atuação, existe muita diferença entre saber a anatomia e a biomecânica do músculo quadríceps, por exemplo, e entender a verdadeira razão que fez com que este músculo tivesse tais características.

Nós acreditamos que tomar como base disciplinas mais rígidas pode ser um modo de errar menos na elaboração do raciocínio clínico ou das condutas clínicas. Nosso objetivo é fornecer uma base lógica para a integração de conhecimentos da Biologia Evolutiva e da Antropologia às Ciências do Movimento, buscando esclarecer o mecanismo natural a partir do qual a movimentação humana evoluiu e se desenvolveu.

Abaixo vou colocar um trecho de um vídeo que acabamos de gravar. Nele faço algumas reflexões sobre a aplicação desse raciocínio na prática. Caso você se interesse por esse tema, acredito que vale a pena assistir! 🙂

 

 

Desde 2011 temos nos aprofundado neste assunto. Para saber mais você também pode ler nossos textos no blog, assistir outros vídeos no canal do YouTube ou participar de nossas formações presenciais para profissionais das Ciências da Saúde e do Movimento.

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