Contraponto

Eu fico sempre muito impressionado sobre como princípios ultrapassados ainda permeiam nossas vidas. As grandes mudanças que o mundo presenciou nos últimos séculos foram impulsionadas pela revolução industrial e, como acontece com qualquer movimento sócio-econômico significativo, houve uma grande influência cultural sobre os hábitos e comportamentos da nossa sociedade. Veja o trabalho nas últimas décadas, pode ser resumido praticamente com a repetição de uma tarefa e a competição de mercado.

 

 

Não há dúvidas que as pessoas tiveram que lidar com a competição nos últimos tempos, mas seria essa uma característica natural de seres humanos?

 

A ideia darwiniana de que há uma “luta pela sobrevivência” não é falsa, mas tem se provado ter uma visão unilateral. O sucesso em sobreviver pode ser entendido, usando o mesmo ponto de vista de Darwin, como aptidão em passar seus genes para frente. Metade da população de seres vivos neste planeta são de espécies cooperativas, porém tais espécies compõem apenas 3% da quantidade total do número de espécies. Em outras palavras 3% das espécie compõem 50% do número de seres vivos no planeta. Isso indica claramente que a cooperação tem um papel importante na sobrevivência do mais apto. Em linhas gerais, tais espécies entendem que apenas quando o grupo sobrevive há sucesso, pois há mais indivíduos e, claro, mais chance de passar os genes da espécie para frente.

 

 

Sem dúvida que a competição existe, mas não de forma declarada. Nenhum indivíduo ou espécie pensa em lutar com o outro pela sobrevivência, há respeito e cooperação intra e interespécies. Temos que lembrar que animais não costumam assassinar uns aos outros (morte sem motivação biológica) como fazemos de uns tempos pra cá. O animal não entende que outra espécie ameaça o nicho dele. Se há disputa entre os machos, os esforços não são para anular o outro, mas sim para permitir com que seus próprios genes passem pra frente. Se um indivíduo tem mais força, habilidade para caça, facilidade para tomar decisões, personalidade marcante e bravura nada mais justo para espécie que este tenha mais descendentes. Deste modo a espécie na próxima geração terá descendentes mais bem adaptados e que sofrerão menos para sobreviver, além disso, serão mais eficientes e gerarão um desgaste ecológico menor. Isso é uma vantagem para a natureza e se uma certa característica é vantajosa esta é recompensada pela seleção natural pela maior facilidade em se reproduzir, favorecendo tal característica genética na próxima geração. Isso num contexto global permite um equilíbrio dos recursos ambientais e possibilita até mesmo o surgimento e o prosperar de outras espécies. Sendo assim, mesmo em espécies ditas “competitivas” não há ressentimento ou pulsão de vingança, pois afinal é o melhor para a espécie.

 

Talvez o ponto mais importante seja que nossa espécie segue completamente os princípios cooperativos. Houve um momento no qual nossa espécie só pode prosperar por causa da cooperação. Há 75 mil anos uma grave erupção vulcânica em Sumatra ocasionou um bloqueio da luz solar por todo o planeta, levando a seis anos de inverno global. Neste período nossos ancestrais foram quase instintos. Evidências no nosso DNA sugerem que aproximadamente mil homo sapiens sapiens (humanos modernos) sobreviveram e estas pessoas foram os ancestrais de sete bilhões de descendentes, nós. Acredita-se que estes humanos só sobreviveram por causa da cooperação, pela troca de experiência, tecnologia e auxílio neste período difícil. Isso nos faz deduzir que houve um momento em nossa história no qual características cooperativas tornaram nossos ancestrais mais aptos a sobreviver e, portanto, de passar seus genes para frente, genes de cooperação que todos nós carregamos hoje.

 

 

O consumo de carne, um dos grandes motores da evolução do nosso cérebro, para ser possível precisou da cooperação entre os machos para que caçassem em grupos. Mesmo antes da caça, o uso de pedra lascada para cortar a carne de carcaças exigiu que se utilizasse o mecanismo de ensino-aprendizado para que a ideia pudesse ser difundida como foi. Até mesmo a revolução agrícola, evento que permitiu o surgimento da civilização, só pode acontecer por causa da cooperação, pois, para se viver em grandes grupos, cidades, cada indivíduo deve trabalhar para adquirir um recurso básico necessário e trocar com outros indivíduos da mesma comunidade. Por exemplo: “se você tem uma pequena plantação de trigo, você me dá um pão e eu te dou um pouco de leite da minha cabra”; e assim surgiram os trabalhos, leiteiro e padeiro neste exemplo.

 

Enfim sem a cooperação não existiria a humanidade e, portanto, temos um caminho mais natural para seguir que a competição. Enquanto espécie cooperativa fica muito mais fácil viver seguindo nossa natureza do que tentando criar um novo modo para se fazer isso. Quando anulamos uns aos outros diminuímos as chances de nossa espécie prosperar. Cada indivíduo pode e deve dar a sua contribuição para o grupo.

 

Muito bem! Rs. Fisioterapeutas,

 

Pra quê ficar tentando ressaltar uma ou outra técnica, um ou outro método.

 

O objetivo da competição, mesmo com a máxima “o importante é competir”, é ganhar. E ganhar, segundo a natureza, é uma questão de ponto de vista

 

Será que ainda não percebemos enquanto classe que todos mostram um ponto de vista da mesma verdade, o ser humano?

 

Quando dizemos que a FBA não é uma técnica ou um método é porque acreditamos que não há como se ter a conduta perfeita, que funciona em qualquer situação. O que podemos melhorar é o nosso raciocínio, o trabalho vivo que empregamos durante aquele momento no qual você e seu praticante estão trabalhando para resolver o problema. O que você usa pra fazer isso é o que menos importa, o importante é como e por que você o faz.

 

Um professor meu me disse um dia:

 

 

Na época eu acreditei, hoje eu concordo.

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