Muita Areia Pro Seu Caminhãozinho

Muita areia pro seu caminhãozinho

Texto por Annemarie Frank

Este texto é um caveat (lat.: tenha cuidado). Uma admoestação. Uma daquelas advertências que acompanham um medicamento, uma infusão, um emplastro. Pois, a princípio, ele se dirige a nós, fisioterapeutas e profissionais de educação física, que prescrevemos, mesmo que não remédios, mas exercícios e condutas.

Nossa sociedade evoluiu, nos últimos milhares de anos, a um nível incomparável de tecnologização. Nunca tivemos tantas ferramentas, tantas técnicas, tantas alternativas automatizadas, para basicamente tudo. Preferimos o carro a andar a pé, usamos alimentos processados, o tablet substituiu uma escrivaninha inteira, e até para cuidar do quintal ou fazer reformas em casa buscamos os aparelhos e “brinquedinhos” mais novos no mercado (confesse, você já se pegou sonhando no setor de ferragens de uma loja de departamentos!).

O exagero da tecnologização trouxe, também, novos problemas ao ser humano. Para começar, a resistência a antibióticos, pelo abuso desnecessário e prescrição errônea dos mesmos. Continuemos com o excesso de parefeitos e problemas novos derivados de interações medicamentosas cada vez mais complexas. Mais especificamente, precisamos falar também sobre o problema dos treinamentos físicos mecanizados com prescrição exagerada e errada, e que pioram padrões de movimentos nocivos que já estão presentes na sociedade sedentária.

Como reação a este mundo cada vez mais moderno e que sofre cronicamente das consequências desta modernidade, observamos um certo movimento na direção contrária. Conseguimos, em várias áreas, nos dar conta de que a história do ser humano preserva soluções simples, e de que o retorno a fundamentos básicos da nossa vivência pode ser extremamente saudável. É necessário, e urgente, que simplifiquemos nosso estilo de vida e diminuamos condutas supérfluas.

Um fato que corrobora tais intenções é a evidência cada vez mais massiva de que a fisioterapia e a atividade física são superiores a certos tratamentos de alta complexidade tecnológica. É louvável a iniciativa de revisões que apontam o excesso de intervenções cirúrgicas desnecessárias, um problema especialmente grave em países subdesenvolvidos. Quem acompanha as notícias dos últimos anos vê cair por terra antes frequentes indicações para a artroscopia de joelho nas rupturas meniscais (1), fusão vertebral (2), cirurgias no manguito rotador (3) e vertebroplastias (4), entre outros.

Todas essas evidências, no entanto, possuem o potencial de criar um viés um tanto unilateral em nós, terapeutas. Somos humanos, e como todo bom Homo sapiens sapiens gostamos de puxar a brasa pro nosso assado. É compreensível, portanto, que surja o efeito “deixa que eu resolvo!” para tantas condições que nos procuram.

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Quando e como reconhecer quando isso acontece?
Mantenha o estudo atualizado e troque ideias com os colegas mais experientes.

Furor curandis. É assim que estudiosos da psique humana, citando Freud (1915), descrevem o desejo do analista em curar, um desejo que, mesmo bem intencionado, “pode se tornar abusivo, interferindo e impossibilitando o trabalho analítico, por pressupor uma valorização no narcisismo daquele que oferece ajuda.” (5)

Queremos curar, queremos ajudar, queremos resolver o problema, e enxergamos potencial em nossas ferramentas. No entanto, a empolgação demasiada atrás de um trabalho terapêutico não deve, e não pode, cegar-nos para a real necessidade do cliente/paciente.

Porque existem, sim, as situações em que o paciente é muita areia pro seu caminhãozinho. Seja porque ele não quer a ajuda real, seja porque ele não possui as condições para que as ferramentas terapêuticas funcionem, ou seja porque o seu problema necessita de fato das possibilidades tecnológicas que temos hoje. Uma espondilodiscite pode precisar urgentemente de um antibiótico de última geração, na veia. Uma dor lombar pode, em raros casos, ser fruto de metástases ósseas de um tumor de próstata, só visíveis à tomografia. A dor na panturrilha pode estar sendo causada por uma trombose venosa profunda, algo que sem tratamento adequado ameaça evoluir à embolia pulmonar. E, apesar da quantidade exagerada de cirurgias ortopédicas prescritas atualmente, persistem evidências de indicações claras, sem sombra de dúvida, em que o procedimento cirúrgico é de maior benefício.

Passei alguns anos da minha vida exercendo a profissão num hospital regional com mais de 1300 leitos. Tenho que convir de que aqueles que acabam por permanecer numa casa assistencial destas são casos graves, casos de exceção, e que tais não constituem uma amostra representativa do que vive cotidianamente em consultórios ou clínicas ambulatoriais. Mas o que víamos por lá, e que merece ser citado, era muita “areia”. Durante os anos de cirurgia ortopédica, vi inúmeros casos oncológicos, doenças sistêmicas, fraturas patológicas e pacientes terminais. Casos complexos, mas que merecem a lembrança: todos eles iniciaram como casos simples. Todos eles, em algum dia, entraram caminhando pela porta de um consultório, para agora eventualmente não mais sair da mesma forma do hospital. A maioria deles começou com uma simples dor.

Quando decidimos criticar o que há de supérfluo e demasiado, voltar às raízes e recuperar o natural, não podemos nos esquecer daquilo que veio para o bem, e que trouxe soluções a muitos problemas que antes carimbavam um destino letal (6). A evolução tecnológica dos últimos tempos trouxe consigo muitas bênçãos. Ela trouxe, por assim dizer, caminhões equipados para carregar muita areia quando o nosso não é suficiente. Ignorar tal fato pode significar uma teimosia perigosa.

Em toda a história da evolução, sobreviveram aqueles que utilizaram inovações de forma razoável e vantajosa. Se ignorarmos inovações por completo, estaremos caminhando na contramão da evolução que nos trouxe aqui.

Em minha concepção, uma das tarefas mais importantes do fisioterapeuta e do profissional de educação física é a de reconhecer suas limitações e saber a quem encaminhar quando a areia é maior do que o seu caminhão. Reconhecer bandeiras vermelhas. Estar atualizado às evidências. Trocar de ideias com colegas competentes e atualizados. Pode até ser que você só veja um destes casos mais complexos disfarçados de simples em toda a sua vida profissional (eu, pessoalmente, já vi uma meia dúzia). Mas se você deixar de ter a cautela necessária, os riscos para esse indivíduo serão imensos. Custa menos deixar o Furor curandis de lado de vez em quando, para engatar o olhar crítico, do que arriscar consequências danosas.

Somente após tal consciência razoável é que entra a função terapêutica cardinal, a de utilizar nosso conhecimento para tentar resolver o problema de quem está à nossa frente. Para tanto, porém, é necessário que se exclua os vieses, que se passe por cima da vaidade, e que se tome a coragem de comunicar com outros profissionais para, de fato, utilizar uma conduta que garanta uma vida melhor ao paciente.

Uma conduta que, eventualmente, requer muita tecnologia.

Annemarie Frank é fisioterapeuta com dupla nacionalidade Homo neanderthalensis/Homo sapiens sapiens. Graduou-se em fisioterapia na terra dos Godos e possui formações em culturas como Maitland, Mulligan, Fisioterapia Esportiva e em terapia da pata dianteira. Atua em caverna própria no extremo Sul da Terra brasilis. 
Entre em contato com a Annemarie physiors@yahoo.com.br Gostou dos textos da Annemarie? Leia também este “Seu Signo É Sagital?” ou este aqui “De onde viemos e para onde estamos sentando?” 😉

 

Referências

  1. Katz JN, Brophy RH, Chaisson CE, et al. Surgery versus Physical Therapy for a Meniscal Tear and Osteoarthritis. The New England journal of medicine. 2013;368(18):1675-1684. doi:10.1056/NEJMoa1301408.
  2. Delitto A, Piva SR, Moore CG, Fritz JM, Wisniewski SR, Josbeno DA, et al. Surgery Versus Nonsurgical Treatment of Lumbar Spinal Stenosis: A Randomized Trial. Ann Intern Med. 2015;162:465-473. doi:10.7326/M14-1420
  3. Kukkonen J, Joukainen A, Lehtinen J, Mattila KT, Tuominen EK, Kauko T, Äärimaa V  Treatment of non-traumatic rotator cuff tears. Bone Joint J 2014, 96-B(1), 75-81. .http://dx.doi.org/10.1302/0301-620X.96B1.32168.
  4. Buchbinder R, Osborne RH, Ebeling PR, Wark JD, Mitchell P, Wriedt C, Graves S, Staples MP, Murphy B. A randomized trial of vertebroplasty for painful osteoporotic vertebral fractures. New Engl. J. Med. 2009. 361:557-568.
  5. Natrielli DG.  Sobre o médico, os profissionais da saúde e o cuidador. Diagn Tratamento. 2012;17(1):40-1.
  6. Schultz, M., Parzinger, H., Posdnjakov, D. V., Chikisheva, T. A. and Schmidt-Schultz, T. H. (2007), Oldest known case of metastasizing prostate carcinoma diagnosed in the skeleton of a 2,700-year-old Scythian king from Arzhan (Siberia, Russia). Int. J. Cancer, 121: 2591–2595. doi:10.1002/ijc.23073

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