O olho vê, o pé pisa

Depender desses intermediários para ver, andar ou pisar, pode ser motivo para algumas reflexões…

Se você está usando óculos para ler esse texto, está entre ¼ da população do Brasil que precisa deste recurso, enquanto 30% a 40% dos habitantes da Europa e dos Estados Unidos também precisam. Já na Ásia esse número pode chegar a 90%. Mas você deve estar se perguntando, o que isso tem a ver com a corrida?

Uma pesquisa realizada com o povo inuit, vulgo esquimós, sobre incidência de miopia, talvez nos ajude a fazer melhor essa relação. A geração mais velha da comunidade indígena inuit do Canadá não apresentava casos de miopia, enquanto que 10% a 25% das crianças precisavam de óculos. Segundo os pesquisadores, não seria possível explicar isso como uma doença genética, fazendo com que eles especulassem que a miopia poderia ser uma doença industrial e que fatores do mundo moderno poderiam estar levando as pessoas a ter uma visão pior.

Para nós da Corrida Ancestral, o mesmo se aplica a maioria dos problemas relacionados ao corredor contemporâneo. Estes podem ser provocados por um comportamento industrializado, sendo que hoje corredores podem chegar a se machucar até 59 vezes a cada 1.000h de exposição a corrida.

Assim como nossa interação com o ambiente pode ser capaz de promover um crescimento excessivo do globo ocular, o que dificultaria a formação de uma imagem na retina e resultaria em miopia, nosso comportamento também pode influenciar diretamente na morfologia, estrutura e funcionalidade dos nossos pés, provocando alterações no modo em que nos locomovemos, por exemplo. Se você duvida, basta olhar os pés de mulheres algumas culturas tradicionais orientais (que deformam o pé propositalmente com o uso de bandagens e calçados apertados), ou simplesmente comparar os pés de pessoas habitualmente descalças e calçadas.

 

Mulher com pé deformado devido à cultura.

Karma

Devemos tomar muito cuidado ao relacionar causa e efeito, pois há muitas variáveis envolvidas quando pensamos nos dois exemplos: lesão de corrida e miopia.

Uma geração de antigos cientistas concluiu de forma imediata que a maneira como somos educados hoje em dia, pensando no hábito de leitura, pode ter provocado o aumento da miopia. Observando o mar de óculos em qualquer sala de aula de uma universidade os levou a concluir que há uma ligação entre uma coisa e a outra. Eles tinham razão apenas em parte, pois estudos epidemiológicos, sugerem que os efeitos da leitura são muito menores do que se acreditava. Na verdade é o tempo passado dentro de espaços fechados que mais influencia na visão, e não o ato de ler. Uma meta-análise, indica que a cada hora adicional de tempo gasto ao ar livre por semana, reduz em 2% a chance de desenvolver miopia, ou ainda  que o aumento do tempo gasto ao ar livre reduz significativamente a progressão miopia.

A mesma geração de pesquisadores, influenciou ortopedistas e a indústria da corrida nos últimos 40 anos, que por sua vez também precipitaram-se ao relacionar causa e efeito a respeito do altíssimo e crescente índice de lesões em corredores, ao concluírem que, se pessoas envolvidas com a prática de corrida se machucam tanto, é porque o ser humano não é uma espécie adaptada a correr.

Felizmente o próprio método científico tem mecanismos de autocorreção e com os avanços do projeto genoma, hoje sabemos que a interação ambiente e genética é muito diferente do que se conhecia no passado. Essa é uma promissora área de conhecimento, a epigenética.

Segundo Ian Flitcroft, do Children’s University Hospital de Dublin,

“nossos genes podem até ter um papel ao definir quem se tornará míope, mas foi apenas por causa de uma mudança ambiental que os problemas surgiram”.

O mesmo pode-se dizer das lesões da corrida, pois desde o começo dos anos 2000 sabemos que o Homo sapiens é um dos animais mais bem adaptados para corrida de longa distância, e o que nos expõe as disfunções músculo-esqueléticas não é necessariamente a ação correr, mas como correr.

O índice de miopia cresce não apenas no grupo indígena em processo de industrialização citado acima, mas também na população já industrializada, uma metanálise de 145 estudos que acaba de ser divulgada por um grupo de pesquisadores da AAO (Academia Americana de Oftalmologia), estima que em 2050 metade da população mundial seja míope e 10% tenha alta miopia que predispõe a graves doenças oculares.

Receio que a mesma tendência ocorra com as lesões na corrida.

Um alerta!

Um erro muito comum é acreditar que os óculos são ruins para seus olhos, mas os estudos mostram que isso não é verdade, então, se você usa, continue usando.

Agora pense comigo: do ponto de vista evolutivo somos adaptados para enxergar bem, afinal de contas nossos ancestrais não usavam óculos para caçar, coletar e sobreviver e não estaríamos aqui pra discutir isso se fosse diferente. Neste caso, se você depende de um recurso como os óculos para realizar essa função, é porque você já está acometido por alguma doença como a miopia, concorda?

Da mesma forma que o olho vê, o pé pisa. Se você depende de um intermediário para isso, há algo errado. Ou seu oculista acha viável usar óculos de grau no dia-dia para prevenir problemas ou melhorar sua visão, mesmo que você não tenha nenhuma disfunção na vista? Parece absurdo, não é!?

Então por que você acha que depende dos tênis para correr? A maioria das pessoas sentem-se incapazes de realizar essa função de forma natural. Mas isso é apenas pelo hábito e reforço cultural. A boa notícia é que é reversível.

Compromisso Ancestral

Quero reforçar que o compromisso da Ancestral não é recomendar você a desistir do tênis (ou dos óculos), mas sim mostrar que é possível recuperar seu potencial humano de corredor, e a partir daí tomar suas próprias decisões quanto às suas preferências.

O que fazer?

A conclusão dada por Flitcroft quanto a miopia pode ser facilmente extrapolada para corrida: “Se deixados em seu habitat natural, ao ar livre, os humanos não se tornam míopes”.

Mas será que é tarde demais?

Se você ficou curioso em saber o que pode ser feito em relação a corrida, saiba que nunca é tarde demais, é só acompanhar os textos e videoaulas da Corrida Ancestral e se inscrever em um de nossos treinamentos.

Referências

Saragiotto, B.T., Yamato, T.P., Hespanhol Junior, L.C. et al. What are the Main Risk Factors for Running-Related Injuries? Sports Med (2014) 44: 1153.

R.W. Morgan, J.S. Speakman, S.E. Grimshaw. Inuit myopia: an environmentally induced “epidemic”? Can Med Assoc J, 112 (1975), pp. 575-577.

Justin C.Sherwin. et al. The Association between Time Spent Outdoors and Myopia in Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-analysis. Presented at: the 2011 American Academy of Ophthalmology Meeting, Orlando, FL (11-PP-30028853-AAO).

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150211_vert_fut_miopia_ml (Acesso em 23/08/2017)

http://www.bbc.com/future/story/20150116-why-are-we-short-sighted (Acesso em 23/08/2017)

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