A Ciência Por Trás do Motivo de Avaliar e Culpar a Postura pela Dor é BB* [Texto do Ben Cormack traduzido]

*BB = bosta de boi = bullshit = expressão inglesa para se referir a algo que não presta; besteira; porcaria.


Essa é uma tradução livre do texto original de
Ben Cormack publicado em 17 de julho de 2017 que pode ser acessado em cor-kinetic.com/science-behind-assessing-blaming-posture-pain-bs/

 

Se eu ganhasse uma libra para todos que mencionassem algo sobre postura em mídias sociais ou quando tiveram um problema de dor… Bem, vamos apenas dizer que eu seria um cara muito rico.

A POSTURA se tornou literalmente gravada no pensamento das pessoas quando se fala sobre dor nas costas, nos ombros ou no pescoço, apesar de se ter uma tonelada de estudos que comparam as posturas de pessoas sem dor com aquelas com dor nas costas, nos ombros ou no pescoço e não encontram diferenças reais, tais informações são IGNORADAS regularmente.

NUNCA deixe a ciência entrar no caminho de uma boa história, especialmente se estiver na net!

Na verdade, escrevi sobre a postura algumas vezes antes:)

The definitive guide to posture and pain 3 minutes flat

Do you really need your joints to be centred?

Mas apenas para começar com um pouco de ciência, este artigo AQUI de 2016 não encontrou diferença significativa na lordose lombar (curva espinhal) entre pessoas com dor nas costas e aqueles sem.

Isso é super importante. COMO podemos culpar algo que vemos em pessoas sem dor como causa de dor para aqueles que fazem?

Apenas deixarei essa informação assentar…

O QUE VOCÊ ESTÁ MENSURANDO?

Então, neste blog, vamos explorar algumas questões relacionadas à forma como avaliamos a postura e, se elas são realmente cientificamente VÁLIDAS, porque se você não tiver uma boa medida para começar, então é muito difícil culpar algo pelo problema .

O primeiro pedaço de EVIDÊNCIA REAL, algo que muitas vezes falta no debate da postura, analisa a medida da LORDOSE LOMBAR EM PÉ (a curva nas costas frequentemente culpada por dor) e esta avaliação é algo que é realizado em consultórios e academias pelo mundo todo.

A ideia é que um aumento (e às vezes uma diminuição) na curva lombar aumenta a dor nas costas e muitas vezes é associado à ideia de que a inclinação da pélvis tem influência no tamanho da curva lombar, embora as curvas lombares não parecem ser muito um fator importante na dor lombar de qualquer maneira (veja a CIÊNCIA acima:)

De volta a 1990, este foi explorado por Heino e colaboradores AQUI e eles descobriram que o ângulo da inclinação pélvica de alguns e sua curva lombar simplesmente não se correlacionam! Então, olhar para a posição da pelve nos diz muito pouco sobre o que está ocorrendo na coluna lombar, que é muito mais difícil de medir. Um estudo muito similar AQUI de antes disso em 1987 também vomitou o mesmo resultado, mas esta BB ainda está sendo ensinada hoje.

De qualquer forma, de volta ao artigo de avaliação de pé AQUI. Os autores exploraram a variabilidade na postura permanente de 400 pessoas, 332 sem dor e 83 com dor lombar, e eles descobriram que cada vez que fica em pé, nós o fazemos de uma maneira ligeiramente diferente.

Os autores, em suas palavras, afirmam que “ficar de pé é altamente individual e pobremente reprodutível”.

Então, por que isso importa?

Colocado de modo simples, qual postura você está REALMENTE avaliando com sua avaliação postural. Se uma pode mostrar um aumento na lordose, e outra uma diminuição.

Tenho algumas questões relacionadas à interpretação das avaliações posturais à luz desta informação.

  • Qual dessas posturas está relacionada ao problema?
  • Quantas vezes você mede e você faz a média?
  • O que você está comparando para determinar se a curva está aumentada ou diminuída?

Os autores destacam um bom ponto: a falta de consistência na postura em pé pode realmente levar ao “diagnóstico errado e, possivelmente, tratamento desnecessário”.

Se você se concentrar em algo que não é um problema, você não se concentra em outra coisa que possa ser ou fica cego ao fato de que não está funcionando ou que apenas funciona de forma transitória (potencialmente, por que tantos casos de dor nas costas são persistentes).

O que as pessoas realmente usam em suas vidas cotidianas também pode ser diferente do que é medido na clínica ou na academia. Uma medida de clínica ou academia poderia ser descrita como uma “fotografia” e este estudo, AQUI, comparou essa “fotografia” com o que realmente foi usado no dia-a-dia pelos participantes do estudo.

Os autores descobriram que, em média, enquanto se está de pé, que é como a maioria das avaliações posturas são, houve uma lordose lombar de 33,3°, mas a média da postura realizada durante um período de 24 horas foi de apenas 8°, uma enorme diferença!

Assim, a avaliação postural “instantânea” NÃO nos informa muito bem sobre a quantidade de lordose REALMENTE utilizada e podemos superestimar a extensão do problema imaginário:)

Também temos que lembrar que foram medidas radiológicas e este é o “padrão-ouro” clínico. Muitas vezes, uma lordose é medida de forma muito mais rudimentar, observando a relação de pontos de referência na pelve indicando uma inclinação pélvica e, portanto, mudança na curva lombar, que já discutimos como não sendo bem relacionado com a curva lombar! Isso, por si só, é um problema, como demonstrado pela Preece em 2008, AQUI, uma vez que a morfologia pélvica também é VARIÁVEL, levando a medidas incorretas.

“Esses resultados sugerem que as variações na morfologia pélvica podem influenciar significativamente as medidas de inclinação pélvica e assimetria rotacional”

Aqui está a distribuição da diferença lado a lado do relacionamento EIAS-EIPS (usado para avaliar a inclinação pélvica), podemos ver que é inclinado para o lado direito, o que significa que é mais inclinado para a frente em um nível ESQUELÉTICO.

Então, pode ser que nós somos realmente ruins em medir algo que não importa tanto. OUCH!

VOCÊ ESTÁ ENVIESADO?

Outra questão importante para aqueles que avaliam a postura é: você está mais inclinado a ver uma “anormalidade” na postura quando você sabe que a dor está presente?

Este artigo AQUI sugere que sim. Os autores analisaram a discinesia escapular ou a postura anormal e o movimento da escápula, que muitas vezes é proposto como CAUSA de dor no ombro.

Eles compararam 67 pessoas com dor no ombro e 68 sem e, em primeiro lugar, descobriram que não havia diferença na postura do ombro ou movimento entre aqueles com dor e aqueles sem.

De forma fascinante, porém, quando os avaliadores estavam conscientes de que estavam avaliando alguém COM DOR, eles relataram uma maior prevalência de um problema de postura ou movimento. Isso mostra um viés para encontrar uma “anormalidade” para culpar quando há dor, embora NÃO EXISTISSE MAIS “anormalidade” naqueles com dor do que sem.

Os autores também sugerem que a discinese escapular realmente representa a variabilidade normal entre humanos! Talvez, se avaliada várias vezes, ter-se-ia várias medidas diferentes em cada uma delas?! É importante lembrar que não temos uma “boa postura” cientificamente definida para que possamos basear os desvios em primeiro lugar.

COMO PESSOAS SAUDÁVEIS SENTAM?

Outra questão é como as pessoas sem dor nas costas realmente se comportam? Eles devem ter uma excelente postura diária certo? Bem na verdade NÃO.

Este artigo AQUI mostra que pessoas assintomáticas, 50 deles, quando se sentam na verdade se JOGAM, adotando uma postura DESLEIXADA. Em 10 minutos sentado, os ângulos espinhais flexionaram 24° na lombar e 12° em regiões toracolombares em relação à postura em pé. Mas esta queda não parece causar problemas.

Assim, as mudanças nas curvas da coluna vertebral NÃO parecem ser muito relacionadas à dor, como podemos ver abaixo.

 

SE POSTURA NÃO SE CORRELACIONA COM DOR, COM O QUE ELA SE CORRELACIONA?

Bem, este artigo, AQUI, mostra que as alterações do alinhamento da coluna cervical se correlacionam com a idade. Este estudo dividiu os participantes em 4 grupos determinados por idade. Eles descobriram que as medidas dos ângulos do pescoço correlacionaram-se com o aumento da faixa etária dos 4 grupos.

O ponto chave para lembrar aqui é que todos os participantes, 120 deles, não tinham dor. Na verdade, os critérios de exclusão aqui eram bastante rigorosos e os autores realmente excluíram 64 pessoas, então 1/3 da amostra original, por ter dor atual ou prévia.

Simplificando, à medida que envelhecemos, nossa postura torna-se “pior” ou talvez seja melhor dizer que a nossa postura aumenta … MAS e isso é um grande MAS, isso não parece causar MAIS dor.

Para resumir, isso não parece tão simples quanto a postura “ruim” = dor que você lê ou é informado no bar, na academia ou no consultório.

 

PONTOS-CHAVE

  • As pessoas com dor NÃO têm posturas diferentes daquelas que não têm dor.
  • Posturas diferentes mostram variabilidade, assim como o movimento.
  • Isso significa que sua avaliação pode não dizer o que você acha que ela diz.
  • Sua avaliação pode estar tendenciosa para encontrar um “problema” postural.
  • As posturas utilizadas ao longo do dia são provavelmente diferentes das que estão sendo avaliadas.
  • À medida que envelhecemos, ocorre mudança da nossa postura e isso acontece com pessoas que também não estão com dor.

 

Essa é uma tradução livre do texto original de Ben Cormack publicado em 17 de julho de 2017 que pode ser acessado em cor-kinetic.com/science-behind-assessing-blaming-posture-pain-bs/

 

O que eu acho disso?

Espero que cada vez menos textos como esses choquem os profissionais das Ciências do Movimento e, em um futuro próximo, o público leigo. Já é hora de abraçarmos a simplicidade e reconhecermos nossa ignorância em relação a como as dores e os fatores biomecânicos se associam (se é que o fazem).

Existe um estudo de revisão que encontrou relação entre dor lombar e redução da curva lombar, no entanto a por meio de análise radiológica da curva lombar, não pela avaliação postural. Ainda assim, outro estudo questiona se os métodos de análise da curva lombar por imagem são realmente confiáveis. De todo modo, os achados da revisão ainda são insuficientes para nos fazer acreditar que “má postura” (se é que isso existe) e dor estão definitivamente relacionadas. E, para confundir ainda mais os profissionais, é também igualmente difícil encontrar estudos de qualidade que mostrem que existem padrões de movimento por si só ruins ou inadequados. Um bom exemplo é a falta de relação da discinese escapular com dor no ombro, como o próprio autor cita no texto. (Em breve lançarei no Youtube da FBA um vídeo falando sobre isso – já está em fase de edição.)

O terreno mais promissor ao meu ver é apostar na variabilidade e na capacidade abrangente de se movimentar. Expondo progressivamente (e com bom senso) o paciente a movimentos, dos mais simples aos mais complexos. Assim que a gente da FBA vem trabalhando. Certamente não estivemos livres do processo de adequar nossa proposta às evidências científicas mais recentes, no entanto, isso traz uma enorme segurança para os nossos atendimentos: a certeza de que você está fazendo o melhor para o seu paciente.

Caso queira saber um pouco mais, assista aos vídeos abaixo. Nessa videoaula dividida em duas partes eu tento, a partir de uma fala livre, destrinchar um pouco mais esse assunto da variabilidade e da capacidade abrangente. 😉

 

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=1WQ3Tc8Mm0E[/embedyt]

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=G2ACto98R6w[/embedyt]

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