Saúde natural: a história da FBA e do Exercício Natural

Paira no ar uma necessidade crescente de verdadeiramente entender nossa natureza.  Nossa natureza é sermos sociais, cooperativos e altruístas? Provavelmente sim. Nossa única defesa por milhões de anos foi a superioridade numérica e a cooperação. Mas e a natureza do nosso corpo? A tendência de “saúde natural” vem crescendo atualmente: os alimentos orgânicos, a alimentação natural, a resistência contra a pressão da indústria farmacêutica para o uso de medicamentos, enfim. Mas e o movimento, o exercício? Foi a fim de responder a estas perguntas que meu amigo Marcelo Sanchez e eu passamos a tentar fazer algo diferente com a Fisioterapia.

O evento que iniciou nossa revolução no modo de praticar a Fisioterapia foi um acidente sofrido pelo Marcelo que lhe custou múltiplas fraturas e um prognóstico médico de incapacidade pelo resto da vida. Depois de inúmeras cirurgias começamos a reabilitação que, espantosamente, transcorreu de forma muito acelerada, em parte pelo Marcelo ser fisioterapeuta e, por isso, entendia muito claramente o processo de reabilitação (além de ser uma pessoa altamente motivada). Contudo, durante o tratamento o objetivo de todas as condutas era tentar ao máximo se aproximar da movimentação mais natural possível. Nascia aí a FBA, ou Fisioterapia BioAntropológica. O que começou de forma empírica foi tomando corpo e ganhando embasamento científico. Descobri todo um mundo de conhecimento científico que simplesmente o fisioterapeuta não acessava – as publicações sobre evolução. Não só existe muita informação sobre biologia humana nestas publicações como tal conhecimento faz toda a diferença no entendimento de disciplinas básicas como anatomia, fisiologia e cinesiologia. Comecei, por exemplo, a entender o papel do estudo da embriologia na hora de tratar um paciente. Você sabia que músculos que se desenvolvem juntos na vida fetal, mantém um relacionamento mecânico e neural no corpo adulto? Eu não sabia. E descobri na prática que isso fazia toda a diferença no entendimento do quadro clínico do meu paciente.

Surge então o conceito central da FBA:

se eu entendo como o corpo deve se movimentar em seu estado natural, consigo identificar o que meu paciente faz de errado.

O tratamento consiste em facilitar com que o paciente (re)conquiste a mecânica natural do corpo, utilizando qualquer tipo de recurso fisioterapêutico, mas, principalmente, orientando e educando.

Voltando ao Marcelo, depois do tratamento, ele ficou com leves sequelas, como uma leve diminuição de amplitude de movimento da coluna lombar. Porém ao observar a agilidade e a fluidez de seus movimentos pode-se constatar que ele é o exemplo vivo de como um tratamento que visa o retorno à natureza do corpo pode ser melhor que uma abordagem técnica e segmentada. Depois da alta, a importância de ter um corpo livre que pudesse se movimentar sem restrições se tornou a principal motivação do Marcelo e ele passou a trilhar seu próprio caminho, desenvolvendo uma linha de exercícios terapêuticos que respeita a movimentação natural do corpo, o Exercício Natural.

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Começamos disseminando o conhecimento entre nós e em nosso círculo de colegas e pacientes, sem muita pretensão, e hoje estamos com uma comunidade crescente de fisioterapeutas, pacientes e alunos que praticam e fortalecem nosso ponto de vista naturalista da saúde humana. Evidente que enfrentamos algumas dificuldades, entre elas certo preconceito entre os colegas. No entanto estamos abertos ao debate científico de nossos conceitos e teorias, que estão absolutamente fundamentados em ciência. Dificilmente aqueles que param para nos ouvir continuam com preconceitos em relação à FBA ou ao Exercício Natural.

Estamos cientes do conflito que nossas afirmações provocam, afinal colocamos em cheque o modelo tradicional de ensino, pesquisa e prática da Fisioterapia e, naturalmente, isso incomoda muitos. Em nosso ponto de vista não existem condutas completamente erradas, existem condutas mal aplicadas pela falta de compreendimento integral do problema do paciente. A ideia da FBA, por não ser uma técnica, é agregar métodos e técnicas e utilizá-los sob um prisma natural, sem excluir ou invalidar (quase) nada. Até porque, a FBA é uma construção de conhecimento, não é uma invenção, é uma descoberta.

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Enfim, toda geração têm suas suposições, como a de que Terra seria o centro do Universo ou que micro-organismos não existiriam, coisas tidas como verdades e que não são questionadas, até a ideia se tornar impossível de se rejeitar. Acredito que o equívoco da nossa geração é em relação aos cuidados de saúde: como supostamente podemos tratar um corpo sem entender o motivo deste ser do jeito que é?

Fica a pergunta…

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