As Dores Musculoesqueléticas na Era da Informação

A força da natureza atualmente é a humanidade. Nossas cidades, plantações, indústrias e represas mudaram a paisagem da Terra. Antropoceno ou “era humana” é como o prêmio Nobel Paul Crutzen define este período que vivemos. Segundo Paul as grandes mudanças no planeta no último século foram provocadas exclusivamente pelos humanos. Desde o fim da era do gelo que o planeta não passava por mudanças tão significativas. Animais e plantas estão sofrendo a maior extinção dos últimos 65 milhões de anos, desde que um meteoro varreu os dinossauros da face da Terra.

Isto tudo acontece pelo fato de que há dois milhões de anos os humanos burlaram a evolução ao utilizar a cultura e a tecnologia para sobreviver. Eis um exemplo, ao invés de desenvolver biologicamente, por meio da evolução, dentes e garras afiadas para caçar o homem inventou a pedra lascada (uma ferramenta que simulava a garra) e, assim, pode caçar, se alimentar de carne e, consequentemente, ter mais chances de sobreviver. Não possuímos grande força física, nossa força física é a cultura, sem ela não existiria humanidade ou progresso humano, desde antes da revolução agrícola até a revolução da informação.

Nosso progresso cultural foi tão grande que nosso corpo não conseguiu acompanhar. Há uma discrepância muito grande entre aquilo para o que a natureza preparou nosso corpo para fazer e o que nosso corpo faz. Para entender este “desentendimento” é preciso analisar toda nossa evolução, considerando a espécie humana resultado de um imenso processo evolutivo de 3,5 bilhões de anos, no qual as espécies sobreviviam por possuir características favoráveis à sobrevivência. Em nosso caso, andar sobre dois membros no ambiente árido no qual evoluímos foi uma grande vantagem, pois permitiu uma locomoção eficiente, além da visualização de predadores e caças.

Somos hoje sete bilhões de humanos, pouco mais da metade vivendo em ambientes urbanos. Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor todos os adultos sofreram, sofrem ou sofrerão dor musculoesquelética em algum momento. Como fisioterapeuta entendo que a urbanização é a grande causa desse sofrimento. Nosso corpo evoluiu num ambiente absolutamente natural, contudo a cultura e a tecnologia supriram a necessidade do corpo evoluir, o que fez a seleção natural atuar com menos força na biomecânica do corpo.


nomade na cidade

Em 2010, o bioantropólogo Daniel Lieberman publicou na principal revista científica do mundo um estudo que balançou os alicerces da prática de atividade física. Ele comprovou que indivíduos que treinavam corrida descalços absorviam melhor o impacto do que aqueles que treinavam de tênis. Tênis que supostamente deveriam ajudar a amortecer os impactos. Em outras palavras, o tênis, um objeto tecnológico desenvolvido para melhorar a saúde de quem o utilizar, provavelmente, foi um dos grandes responsáveis por muitas das lesões sofridas por esportistas amadores nos últimos 40 anos. O fato é que nossa biomecânica não foi preparada para cadeiras, calçados ou carros. A natureza não preparou nosso corpo para tal. Para compreender verdadeiramente os problemas do humano moderno, precisamos entender em quais circunstâncias nosso corpo se desenvolveu e em quais o forçamos a viver. Os fatores culturais interferem de modo cruel em nossa saúde, porém são negligenciados pelo modelo de saúde vigente. Dores e desconfortos devem ser observados de um ponto de vista mais abrangente, associando as ciências biológicas às humanas. O ser humano é biológico, mas, ao mesmo tempo, cultural.

Texto publicado originalmente no Jornal Empresas & Negócios ed. 1914 pg. 2

1 Comment

  1. Paula Marrafa disse:

    Esse ano não deu, mas irei “correndo” fazer o curso de vocês no ano que vem. A cada artigo ou vídeo-aula, admiro mais o trabalho de vocês! Fico feliz pela nossa classe! Parabéns pelo texto! Abraços!

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