Inflamação e Evolução

Toda vez que me pedem para escrever sobre o que é a FBA tento começar o texto do zero, mesmo já tendo muitos textos elaborados sobre o assunto tento me desapegar do desnecessário ou então dos vícios de raciocínio que possam ter ocorrido durante a elaboração de outros textos. Enfim, para quem não conhece, FBA é a sigla de Fisioterapia BioAntropológica e este nome serve apenas para diferenciar nosso modelo de praticar Fisioterapia do modelo tradicional. A maior diferença da FBA é que nela se aproveita uma gama de conhecimentos científicos que o fisioterapeuta não costuma ter acesso, englobando principalmente o estudo da Evolução com o intuito de enriquecer o entendimento do ser humano. Por isso Bioantropologia no nome, ciência também conhecida por Antropologia biológica.

 

O problema que a FBA tenta sanar é o fato do ensino da Evolução ser ignorado na formação do profissional da área de saúde, inclusive do fisioterapeuta. Que profissional da área de saúde estudou Evolução humana na graduação? Porém o que poucos sabem é que a Evolução é O CONCEITO que fundamenta e unifica todas as ciências biológicas. Está aí, então, a maior crítica que a FBA faz: por que não aprendemos as disciplinas biológicas, como anatomia, fisiologia, biomecânica, entendendo o motivo das coisas serem como são? Quem nos diz o motivo do corpo ser como é são as pressões evolutivas, que moldaram ao longo de milhões de anos de adaptação todas as características corporais (como já dizia Darwin e hoje Dawkins diz). Você já parou pra pensar que, por exemplo, a inflamação pode ser útil? A inflamação é simplesmente uma resposta do organismo para curar a lesão e reparar os tecidos. Seus efeitos (muitas vezes considerados sintomas) são na verdade mecanismos de cura. O edema, um dos efeitos da inflamação, é um modo de “imobilizar” o local machucado, a fim de prevenir o aumento da lesão. Ao inibir a inflamação impedem-se seus efeitos benéficos. Impede-se também que os macrófagos limpem a região da lesão e, consequentemente, que estimulem a formação de novos vasos. Nesta perspectiva as condutas anti-inflamatórias parecem não fazer sentido.

 

adsasd

 

Pés de mamíferos quadrúpedes + base de sustentação bípede = entorse

(Para entender a piada clique aqui)

 

 

A questão é: por que o modelo de saúde repete tais linhas de raciocínio tão inadequadas? Conspirações da indústria farmacêutica a parte, na minha concepção estes equívocos acontecem pela falta de integração das disciplinas biológicas. Para explicar-me melhor continuarei usando o exemplo da inflamação. Sob o ponto de vista clássico a inflamação é ruim, pois provoca calor, rubor, edema, dor e perda de função; e como ninguém deseja sentir estes sintomas, faz-se de tudo para remediá-los. Porém sob uma perspectiva evolutiva, entende-se que essas respostas orgânicas têm uma função: a de impedir com que aquele ser vivo se lese mais e a de proporcionar uma regeneração do local. Pensando desta forma, repousar e esperar a melhora dos sinais inflamatórios foi com certeza uma grande vantagem evolutiva que permitiu a sobrevivência de nossos ancestrais, antes até de existir os cuidados médicos. O edema, a dor e a perda de função servem naturalmente para preservar a região acometida e impedir que a lesão aumente, enquanto o calor e o rubor indicam um aumento do metabolismo que está acontecendo para limpar e reparar os tecidos lesados.

 

edemaDepois da queda a imobilização natural…

 

Meu ponto é que falta um entendimento mais profundo daquilo que se estuda na área da saúde. Ao se compreender o motivo de uma função orgânica ter evoluído pode-se entender melhor sua anatomia, fisiologia e biomecânica. A falta desta profundidade é interessante para quem? Para o paciente? Certamente não. Para o profissional, que faz um trabalho mal feito e incompleto? Também acredito que não. Acredito que apenas aqueles que estão no controle do sistema de saúde se beneficiam, pois este sistema burro facilita a repetição de modelos e a propagação do próprio sistema, que trata muito mal a causa dos problemas de saúde, tornando o usuário cada vez mais dependente.

 

A ideia da FBA é correr atrás deste prejuízo acadêmico. Ensinar ao fisioterapeuta como raciocinar por conta própria, fazê-lo entender a real origem do problema de saúde que ele trata, tornando-o mais eficiente na prática individual e coletiva da Fisioterapia. Além disso tudo, a FBA visa ressaltar o papel de educador da sociedade do fisio, em outras palavras, o paciente não deve apenas receber orientações para amenizar seu problema e sim entendê-lo verdadeiramente, na raiz, e, assim, ensinar àqueles que estão envolta. Ensine a um paciente com cervicalgia crônica por que e pra que servem os movimentos de pescoço e cabeça e depois o ensine a realizá-los da forma correta, ou seja, do modo que a Evolução o moldou (você aprendeu isto na graduação?) e veja os sintomas melhorarem como num passe de mágica. A FBA é isso, um retorno ao simples, ao natural. Ela toma um caminho que as ciências da saúde deveriam ter se aproveitado há pelo menos 150 anos: o entendimento da lei máxima da natureza, a Evolução.

 

— Publicado originalmente em julho de 2012 para o site Reprograme-se.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *